Nenhuma outra parte da teoria de Freud foi mais veementemente rejeitada do que a idéia da sobrevivência da herança arcaica a sua reconstrução da pré-história da humanidade desde a horda primordial, passando pelo parricídio, até a civilização. As dificuldades de verificação científica e até no aspecto de coerência lógica são óbvias e talvez insuperáveis. Além disso, são reforçadas pelos tabus que a hipótese freudiana tão eficazmente viola; não nos reporta à imagem de um paraíso que o homem perdeu em castigo de seu pecado contra Deus, mas ao domínio do homem pelo homem, estabelecido por um pai-déspota sumamente terreno e perpetuado pela rebelião malograda e incompleta contra êle. O pecado original foi contra o homem e não foi pecado, porque foi cometido contra um que era, êle próprio, culpado. E essa hipótese filogenética revela que a civilização madura está ainda condicionada pela imaturidade mental arcaica. A memória de impulsos e feitos pré-históricos continua assediando a civilização: o material reprimido retorna, e o indivíduo ainda é castigado por impulsos que foram dominados há muito tempo e feitos que há muito se resolveram. Se a hipótese de Freud não fôr corroborada por qualquer prova antropológica, terá de ser inteiramente rejeitada, excetuando o fato de que ela encaixa, numa seqüência de eventos catastróficos, toda a dialética histórica de dominação e, por conseguinte, elucida aspectos da civilização até aqui inexplicados. Usamos a especulação antropológica de Freud apenas neste sentido: pelo seu valor simbólico. Os eventos arcaicos que a hipótese estipula poderão estar para sempre fora do alcance da verificação antropológica; as conseqüências alegadas desses eventos são fatos históricos, e a sua interpretação, à luz da hipótese de Freud, empresta-lhes um significado até hoje omitido, que aponta para o futuro histórico. Se a hipótese desafia o senso comum, proclama, no entanto, à sua revelia, uma verdade que esse mesmo senso comum tem sido treinado a esquecer.
Na construção freudiana, o primeiro grupo humano foi estabelecido e mantido pelo domínio imposto de um indivíduo sobre os outros. Num dado momento da vida do gênero homem, a vida grupai foi organizada por dominação. E o homem que conseguiu dominar os outros era o pai, quer dizer, o homem que possuía as mulheres desejadas e que, com elas, gerara e conservara vivos os filhos e filhas. O pai monopolizou para si próprio a mulher (o prazer supremo) e subjugou os outros membros da horda ao seu poder. Conseguiu estabelecer o seu domínio porque lograra excluir os outros membros do prazer supremo? Em todo caso, para o grupo como um todo, a monopolização do prazer significou uma distribuição desigual de sofrimento: …a sorte dos filhos era árdua; se excitavam o ciúme do pai, eram mortos, castrados ou expulsos. Eram obrigados a viver em pequenas comunidades e munir-se de esposas roubando-as de outros . O fardo de todo e qualquer trabalho a realizar na horda primordial era imposto aos filhos que, por sua exclusão do prazer reservado ao pai, tinham ficado livres para a canalização da energia instintiva para as atividades desagradáveis, mas necessárias. A repressão da gratificação das necessidades instintivas, imposta pelo pai, a supressão do prazer, não foi, portanto, um resultado apenas da dominação, mas criou também as precondições mentais que eram propícias ao contínuo funcionamento da dominação.
Nessa organização da horda primordial, racionalidade e irracionalidade, fatores biológicos e sociológicos, o interesse comum e o particular estão inextricàvelmente interligados. A horda primordial é um grupo em funcionamento temporário, que se mantém numa espécie de ordem; portanto, é legítimo supor que o despotismo patriarcal, que estabeleceuessa ordem, fosse racional na medida em que criou e preservou o grupo mediante a reprodução do todo e o interesse comum.
Ao estabelecer o modelo para o subseqüente desenvolvimento da civilização, o pai primordial preparou o terreno para o progresso através da repressão imposta ao prazer e à abstinência forçada; criou, assim, as primeiras precondições para a disciplinada força de trabalho do futuro. Além disso, essa divisão hierárquica do prazer foi justificada pela proteção, segurança e até amor; em virtude do déspota ser o pai, a aversão com que os seus súditos o viam devia, desde o princípio, fazer-se acompanhar de uma afeição biológica emoções ambivalentes que se expressavam no desejo de substituir e de imitar o pai, de identificarem-se com êle, com o seu prazer e o seu poder. O pai estabelece a dominação em seu próprio interesse, mas, ao fazê-lo, está justificado pela sua idade, sua função biológica e (sobretudo) pelo seu êxito: êle criou aquela ordem sem a qual o grupo imediatamente se dissolveria. Nesse papel, o pai primordial prenuncia as subseqüentes e dominadoras imagens paternais, a cuja sombra a civilização progrediu. Em sua pessoa e função, êle consubstancia a lógica interior e a necessidade do próprio princípio de realidade. O pai tem direitos históricos. A ordem reprodutiva da horda sobreviveu ao pai primordial:
… um ou outro filho conseguiria alcançar uma situação semelhante à do pai na horda original. Uma posição favorecida materializou-se de um modo natural: foi a do filho mais novo, que, protegido pelo amor de sua mãe, aproveitou-se da idade avançada do pai e o substituiu após a sua morte.
O despotismo patriarcal da horda primordial passou a ser, portanto, uma ordem efetiva . Mas a efetividade da organização sobreposta da horda deve ter sido muito precária e, conseqüentemente, o ódio contra a supressão patriarcal muito forte.
Na construção de Freud, esse ódio culmina na rebelião dos filhos exilados, o assassinato e devoração coletiva do pai, e o estabelecimento do clã dos irmãos, que, por sua vez, deifica o pai assassinado e introduz aqueles tabus e restrições que, segundo Freud, geraram a moralidade social. A hipotética história da horda primordial, descrita por Freud, trata a rebelião dos irmãos como uma revolta contra o tabu, decretado pelo pai, em relação às mulheres da horda; não está em causa qualquer protesto social contra a divisão desigual do prazer. Por conseqüência, num sentido estrito, a civilização só começa no clã dos irmãos, quando os tabus, agora auto-impostos pelos irmãos governantes, implementam a repressão no interesse comum de preservação do grupo como um todo. E o evento psicológico decisivo que separa o clã dos irmãos da horda primordial é o desenvolvimento do sentimento de culpa. O progresso, para além da horda primordial isto é, a civilização pressupõe o sentimento de culpa, que introjeta nos indivíduos e, portanto, sustem, as principais proibições, restrições e dilações na gratificação, das quais a civilização depende.
É uma razoável conjetura que, após a morte violenta do pai, tenha decorrido um período em que os irmãos discutiram entre si a sucessão, cada um querendo obtê-la exclusivamente para si. Acabaram por compreender que essas lutas eram tão perigosas quanto fúteis. Essa compreensão, a custo conseguida, assim como a recordação do ato de libertação que tinham cometido juntos e a amizade que se estabelecera entre eles durante o tempo de exílio deram lugar, finalmente, a uma união entre todos, uma espécie de contrato social.
Assim nasceu a primeira forma de organização social, acompanhada da renúncia à gratificação instintiva; do reconhecimento de obrigações mútuas de instituições declaradas sagradas e que não podiam ser violadas em resumo, os primórdios da moralidade e da lei. A rebelião contra o pai é rebelião contra a autoridade biològicamente justificada; o seu assassinato destrói a ordem que preservava a vida do grupo. Os rebeldes cometeram um crime contra o todo e, por conseguinte, contra eles próprios. São culpados perante os outros e perante eles próprios e devem-se arrepender. O assassinato do pai é o crime supremo, porque o pai estabeleceu a ordem de sexualidade reprodutiva e, assim, é, na sua pessoa, o gênero que cria e preserva todos os indivíduos.
O patriarca, pai e tirano em um só indivíduo, une o sexo e a ordem, o prazer e a realidade; suscita amor e ódio; garante as bases biológica e sociológica de que depende a história da humanidade. O aniquilamento da sua pessoa ameaça aniquilar uma vida duradoura para o próprio grupo e restaurar a força destrutiva, pré-histórica e sub-histórica, do princípio de prazer. Mas os filhos querem a mesma coisa que o pai; querem a duradoura satisfação de suas necessidades. Só podem atingir esse objetivo repetindo, numa nova forma, a ordem de dominação que controlava o prazer e por isso preservava o grupo. O pai sobrevive como o deus em cuja adoração os pecadores se arrependem, para que possam continuar pecando, enquanto os novos pais consolidam aquelas supressões de prazer que são necessárias para salvaguardar sua soberania e sua organização do grupo.
O progresso da dominação por um para a dominação por muitos envolve uma propagação social do prazer e faz que a repressão seja auto-imposta no próprio grupo governante: todos os seus membros têm de respeitar os tabus se querem manter sua chefia. A repressão impregna agora a vida dos próprios opressores e uma parte de sua energia instintiva fica disponível para a sublimação no trabalho .
Ao mesmo tempo, o tabu sobre as mulheres do clã leva à expansão e amálgama com outras hordas; a sexualidade organizada dá início àquela formação de unidades mais vastas que Freud considerou ser a função de Eros na civilização. O papel das mulheres ganha uma importância crescente. Uma boa parte do poder que ficara devoluto pela morte do pai passou para as mulheres; seguiu-se o período de matriarcado . Parece essencial à hipótese de Freud que, na seqüência do desenvolvimento, rumo à civilização, o período matriarcal tenha sido precedido pelo despotismo patriarcal primordial; o baixo grau de dominação repressiva, a amplitude de liberdade erótica, que estão tradicionalmente associados ao matriarcado, depa-ram-se-nos, na hipótese de Freud, mais como conseqüências do derrubamento do despotismo patriarcal do que como condições naturais primárias. No desenvolvimento da civilização, a liberdade só se torna possível como libertação. A liberdade segue-se à dominação e conduz à reafirmação da dominação. O matriarcado é substituído por uma contra-revolução patriarcal, e esta última é estabilizada mediante a institucionalização da religião.
Fonte:
O Eros e a Civilização de Hebert Marcuse
Cap. 3: A Origem da Civilização Repressiva
Comentário do autor do blog: Como esquerdistas são pedantes. Acho que isso tem o propósito de reduzir o peso das reais intenções presentes nas teorias deles. Pelo menos para a massa, que lê isso e pouco entende, mas que os intelectuais mais perversos absorvem e sabem repassar direitinho essas ideias para os idiotas úteis de maneira mastigada e enviesada positivamente.